O pecado penetra no mais íntimo
do nosso ser, o pecado está no âmago da alma humana. "Porque do coração
procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos
testemunhos, blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem" (Mt
15.19, 20). "O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, eo mau do
mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração"
(Lc 6.45).
No entanto, o pecado não é uma
fraqueza ou um vício pelo qual não somos responsáveis. É um antagonismo ativo e
intencional contra Deus. Os pecadores livre e prazerosamente optam pelo pecado.
Está na natureza humana amar o pecado e odiar a Deus. "O pendor da carne é
inimizade contra Deus" (Rm 8.7).
Em outras palavras, o pecado é
rebeldia contra Deus. Os pecadores raciocinam no próprio coração: "Com a
língua prevaleceremos, os lábios são nossos; quem é o Senhor sobre nós?"
(SI 12.4, ênfase acrescentada). Isaías 57.4 caracteriza os pecadores como
crianças rebeldes que abrem sua enorme boca e mostram a língua para Deus. O
pecado destronaria Deus, o destruiria e colocaria o ego no seu lugar de
direito. Todo pecado é, em último caso, um ato de orgulho, que diz: "Dê o
lugar, Deus, eu estou no comando". Por isso é que todo pecado, no seu
âmago, é uma blasfêmia.
Para começar, amamos nosso
pecado; temos prazer nele, buscamos oportunidades para praticá-lo. No entanto,
por sabermos instintivamente que somos culpados diante de Deus, inevitavelmente
tentamos camuflar ou negar nossa própria pecaminosidade. Há muitas maneiras de
fazer isso, como observamos nos capítulos anteriores. Elas podem ser resumidas,
grosso modo, a três categorias: encobri-lo, justificar-nos e ignorá-lo.
Primeiro, tentamos encobrir o
pecado: Adão e Eva fizeram isso no Jardim, depois de ter pecado:
"Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus,
coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si" (Gn 3.7) — então se
esconderam da presença do Senhor (v. 8). O rei Davi tentou em vão encobrir sua
culpa quando pecou contra Urias. Ele tinha adulterado com a esposa de Urias,
Bate-Seba. Quando ela ficou grávida, primeiro Davi tramou um plano tentando
fazer parecer que Urias era o pai da criança (2Sm 11.5-13). Quando o plano não
funcionou, ele conspirou para que Urias fosse morto (vs. 14-17). Isso somente
agravou o seu pecado. Durante todos os meses da gravidez de Bate-Seba, Davi
continuou encobrindo o seu pecado (2Sm 11.27). Mais tarde, quando Davi foi
confrontado com seu pecado, ele se arrependeu e confessou: "Enquanto calei
os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo
o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou
em sequidão de estio" (SI 32.3, 4).
Segundo, tentamos nos
justificar. O pecado é sempre culpa de alguém. Adão culpou Eva, e a descreveu
como "a mulher que me deste" (Gn 3.12; ênfase acrescentada). Isso
mostra que ele também culpava a Deus. Ele não sabia o que era uma mulher até
acordar casado com uma! Deus, raciocinou ele, era o responsável pela mulher que
o vitimizou. Da mesma maneira, nós nos desculpamos pelos nossos erros porque
pensamos que a culpa é de outra pessoa. Ou argumentamos ter um bom motivo.
Convencemos a nós mesmos que é correto retribuir o mal com o mal. (cf. Pv
24.29; lTs 5.15; IPe 3.9). Ou então pensamos que se os motivos finais são bons,
o mal pode ser justificado — raciocínio errado de que os fins justificam os
meios (Rm 3.8). Chamamos o pecado de desequilíbrio, rotulamos a nós mesmos de
vítimas ou negamos que os nossos atos sejam pecaminosos. A mente humana é de
uma criatividade sem-fim quando se trata de encontrar mecanismos para
justificar o mal.
Terceiro, ignoramos nosso
próprio pecado. Sempre pecamos por ignorância ou presunção. Por isso Davi orou:
"Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são
ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então,
serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão". (SI 19.12,
13). Jesus nos advertiu sobre a loucura de tolerar uma trave nos nossos olhos e
nos preocuparmos com um argueiro no olho do outro (Mt 7.3). Pelo fato de o
pecado ser tão difuso, nós naturalmente tendemos a nos tornar insensíveis ao nosso
próprio pecado, do mesmo modo que o gambá não é incomodado pelo seu próprio mau
cheiro. Até mesmo uma consciência supersensível pode não saber todas as coisas
(cf. ICo 4.4).
O pecado não se expressa
necessariamente por atos. Atitudes pecaminosas, disposições pecaminosas,
desejos pecaminosos e um estado pecaminoso de coração são tão repreensíveis
quanto as ações que ele produz. Jesus disse que a ira é tão pecaminosa quanto o
homicídio, e a concupiscência tanto quanto o adultério (Mt 5.21-28).
O pecado é de tal maneira
enganoso que torna o pecador insensível contra sua própria perversidade (Hb
13.3). E natural desejarmos minimizar nosso pecado, como se ele não fosse de
fato uma grande coisa. Afinal de contas, dizemos a nós mesmos, Deus é
misericordioso e amoroso, não é? Ele compreende nosso pecado e não pode ser tão
duro conosco, não é mesmo? Mas raciocinar dessa maneira é deixar-se ludibriar
pela astúcia do pecado.
O pecado, de acordo com as
Escrituras, é "a transgressão da lei" (1 Jo 3.4). Em outras palavras,
"aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a
transgressão da lei". Pecado, portanto, é qualquer falta de conformidade
com o perfeito padrão moral de Deus. A exigência central da lei de Deus é que o
amemos: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua
alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento" (Lc 10.27).
Sendo assim, a falta de amor a Deus é a epítome de todo pecado.
Mas "o pendor da carne é
inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode
estar" (Rm 8.7). Nossa aversão natural à lei é tal que mesmo sabendo o que
a lei requer, ela suscita em nós uma ânsia pela desobediência. Paulo escreveu:
"as paixões pecaminosas postas em realce pela lei... eu não teria conhecido
o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se
a lei não dissera: Não cobiçarás" (Rm 7.5-7). A inclinação do pecador pelo
pecado é tal que este o controla. Ele é escravo do pecado, porém o busca com
uma fome insaciável e com toda paixão do seu coração.
O
amor de Cristo para com os homens
constrange o crente a viver uma vida santa, pois essa verdade remove todo o seu
ódio e pavor de Deus. Enquanto Adão ainda não havia pecado, Deus era tudo para
sua alma e tudo era bom e desejável para ele. somente até onde tivesse a ver
com Deus.
Cada
veia do seu corpo, tão tremenda e maravilhosamente feita, cada folha
farfalhante do Paraíso, cada novo sol que nascia, regozijando-se como um homem
forte numa corrida, traziam-lhe diariamente novos assuntos para pensamentos
santos e louvores de admiração. Somente por essa razão ele poderia deleitar-se
em olhar para essas coisas. As flores que se desabrochavam sobre a terra, o
canto dos pássaros, a voz da rola ouvida em toda a terra feliz, a figueira
produzindo seus verdes figos e as vinhas com suas uvas tenras exalando um bom
aroma, todas essas coisas combinavam para trazer-lhe ao íntimo uma rica e
variada oferenda de agradabilidade. E por que? Justamente porque elas traziam à
alma ricas e variadas comunicações da multiforme graça do Senhor. Pois, como
você pode ter visto uma criança devotada ao seu pai terreno, sempre alegre
quando ele está presente, e dando valor a cada dádiva, na medida em que
demonstra cada vez mais o terno coração daquele pai, assim era com aquele
genuíno filho de Deus. Em Deus ele viveu, se moveu e existiu; e a remoção
daquela luz natural, tão agradável aos olhos, devido o desaparecimento do sol
nos céus, não seria mais certo do que a desaparição da luz de sua alma se Deus
escondesse dele a Sua face.
Mas
quando Adão caiu, o ouro fino tornou-se ofuscado, a ordem de seus pensamentos e
gostos foi invertida. Em vez de alegrar-se em Deus em tudo, e por tudo, agora
tudo se tornara odioso e desagradável para ele, na medida em que tivesse
vinculo com Deus.
Quando
o homem pecou então ele temeu e odiou Aquele a quem temia; fugiu para todo tipo
de pecado na tentativa de escapar dAquele a quem odiava. Assim como você pode
ter visto uma criança que transgrediu gravemente contra um pai amável fazer
tudo que puder para esconder-se dele, fugindo de sua presença e mergulhando-se
em outros pensamentos e ocupações, tentando livrar-se a todo custo da realidade
desse pai ofendido com razão; semelhantemente, quando o desobediente Adão ouviu
a voz do Senhor Deus presente no jardim na viração do dia — aquela voz que
anteriormente era música celestial aos seus ouvidos — ele e sua mulher
"esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do
jardim". E da mesma forma todo homem natural foge da voz e da presença do
Senhor, não para esconder-se debaixo da densa copagem do Paraíso, mas para se
meter em cuidados e negócios, prazeres e divertimentos. Qualquer refúgio é
agra¬dável, contanto que Deus ali não esteja; qualquer ocupação é tolerável se
Deus não estiver nos pensamentos.
Estou
bem certo de que muitos de vocês podem ouvir esta acusação contra o homem
natural com incrédula indiferença, até mesmo com indignação. Não sentem que
odeiam a Deus ou que temem a Sua presença, portanto, dizem que isto não pode
ser verdade. Mas quando Deus diz que seus corações são desesperadamente
corruptos; quando Ele reivindica para Si mesmo o privilégio de conhecer e
provar o coração, não é presunço.so que seres ignorantes como nós, digamos que
isso não é verdadeiro com relação aos nossos corações, aquilo que Deus afirma
ser verdade, simplesmente porque não estamos cônscios disso? Deus diz que a
"mente carnal é inimizade contra Deus", que a natureza e a substância
da mente inconversa é ódio contra Deus, absoluto e implacável ódio contra Ele,
no qual vivemos, nos movemos e existimos.
É
bem verdade que não sentimos esse ódio dentro de nós; mas isso é somente um
agravamento de nosso pecado e de nosso perigo. Temos obstruído de tal maneira
as veredas do exame próprio, existem tantos retornos e labirintos antes que
possamos chegar aos verdadeiros motivos de nossas ações, que nosso medo e ódio
a Deus — aquilo que originalmente conduziu o homem a pecar e que são ainda as
grandes forças propulsoras pelas quais Satanás atiça os filhos da desobediência
— estão tão escondidas de nossa vista que é impossível persuadir um homem
natural de que elas realmente estão aí. Todavia, a Bíblia testifica que dessas
duas raízes mortíferas (horror e ódio a Deus) nasce a espessa floresta de
pecados com a qual o mundo está enegrecido e coberto. E se existe alguém entre
vocês, já despertado por Deus para conhecer o que há em seu coração, chamo esse
homem, hoje, para testemunhar que o seu amargo clamor, diante de todos os seus
pecados, sempre tem sido: "Contra ti, contra ti somente pequei".
(Salmo 51:4)
Se,
então pavor de Deus e ódio a Deus são a causa de todos os nossos pecados, como
seremos curados do amor ao pecado senão pela remoção da causa? Como se mata da
maneira mais efetiva a erva daninha? Não é cortando-a pela raiz? No amor de
Cristo para com o homem — naquele estranho e inefável dom de Deus, quando Ele
entregou Sua vida em favor de Seus inimigos, ao morrer, o justo pelo injusto,
para nos levar a Deus — você não vê algo que, se realmente crido pelo pecador,
remove todo o seu pavor e ódio contra Deus? A raiz do pecado é separada da
planta inteira. Em Sua expiação de todos os nossos pecados, vemos a maldição
removida, vemos Deus reconciliado. Por que continuaríamos a ter medo? Não
temendo, por que odiríamos ainda a Deus? Não odiando a Deus, o que ainda vemos
de desejável no pecado? Sendo revestidos com a justiça de Cristo, estamos no
lugar em que Adão estava, tendo Deus como nosso amigo. Não temos motivo de
permanecer no pecado e, portanto, não temos vontade de cometer o pecado.
No
sexto capítulo de Romanos, Paulo parece falar do crente em pecado, como se a
idéia fosse totalmente absurda. "Nós que morremos para o pecado",
isto é, que em Cristo já suportamos a penalidade
— "como viveremos ainda nele"? E
novamente ele
diz
com muita confiança: "Porque o pecado não
terá
domínio sobre vós" — é impossível na própria
natureza
das coisas — "Pois não estais debaixo
da
lei, mas debaixo da graça"; vocês não estão mais
sob
a maldição de uma lei transgredida, temendo e
odiando
a Deus, e sim sob a graça, isto é, sob um
sistema
de paz e amizade com Deus.
Porventura
haverá alguém disposto a fazer objeção a mim argüindo que, se essas coisas
estão certas e nada mais é necessário para que um homem tenha uma vida santa do
que se se colocar em paz com Deus, como se explica então que os crentes ainda
pecam? Eu responde que realmente é verdade que os crentes pecam, mas também é
verdade que a causa de seus pecados é a incredulidade. Se você e eu vivêssemos
com nossos olhos voltados diretamente para Cristo crucificado, oferecendo
gratuitamente a todos uma justiça que cobre todos os nossos pecados, e se essa
constante visão do amor de Cristo se mantivesse dentro de nós (como seguramente
o seria se olhássemos com honestidade) a paz de Deus que ultrapassa todo o
entendimento
— paz que não depende de nós, e sim da
plenitude
que
está em Cristo — então digo que, frágeis e
indefesos
como somos, nós não pecaríamos nunca;
não
teríamos o menor interesse em pecar. Mas isto
não
é o que acontece conosco.
Quão
freqüentemente durante o dia o amor de Cristo fica completamente fora de vista!
Quão freqüentemente é obscurecido para nós! As vezes é escondido de nós, até
mesmo por Deus, para nos ensinar o que somos. Quão freqüentemente esquecemos a
plenitude de Sua oferta, a perfeição de Sua justiça e ficamos sem a vontade e a
confiança de reivindicar qualquer participação n'Ele! Quem pode, portanto,
estranhar que, onde haja tanta incredulidade, o pavor e ódio contra Deus se
insinuasse repetidas vezes e o pecado freqüentemente erguesse sua cabeça
venenosa?
O
assunto é muito claro, basta que tenhamos visão espiritual para percebê-lo. Se
vivermos uma vida de fé no Filho de Deus, então seguramente viveremos uma vida
de santidade. Eu não estou dizendo que deveríamos fazê-lo, e sim que nós
faremos isso como conseqüência necessária. Mas até onde não vivermos uma vida
de fé, viveremos uma vida de impiedade. É através da fé que Deus purifica o
coração e não há outro modo.
Haverá
entre vocês, então alguém desejoso de se tornar novo e ser libertado da
escravidão de hábitos e afeições pecaminosas? Não podemos indicar-lhe outra
solução, a não ser o amor de Cristo. Contemple como Ele te amou! veja o que Ele
padeceu por você; coloque teu dedo, por assim dizer, nas marcas dos cravos e
lance tua mão no Seu lado e não seja mais incrédulo, mas crente. Sob uma
convicção de pecado, fuja para o Salvador dos pecadores. Como a pomba temerosa
voa para se esconder entre as fendas da rocha, assim também fuja para te
esconder nas feridas de teu Salvador e quando você O tiver achado como a sombra
de uma grande rocha numa terra deserta, e sentar-se debaixo da Sua sombra com
grande deleite, perceberá que Ele acabou com toda a inimizade, havendo
terminado com toda a tua luta. Deus agora está do teu lado. Plantado com Cristo
na semelhança de Sua morte, assim você será também na semelhança de Sua
ressurreição. Morto para o pecado, você será vivo para Deus.
O
que se requer não é um conserto ou uma alteração, uma pequena limpeza e
purificação, um pouco de pintura e remendo, uma folha nova no caderno da vida.
É a entrada de algo totalmente novo, o semear em nós de uma nova natureza, de
um novo ser, de um novo princípio, de uma nova mente; só isso, e nada menos que
isso, poderá vir de encontro às necessidades da alma do homem. Não precisamos
apenas de pele nova; precisamos de um coração novo.
Cortar
um bloco de mármore e esculpir dele uma nobre estátua, transformar um vasto
deserto em um jardim de flores, derreter uma barra de ferro e forjá-la em molas
de relógio - todas essas são mudanças imensas. Contudo, nada são em comparação
com a mudança que todo filho de Adão requer, pois aquelas são meramente o mesmo
material sob nova forma, a mesma substância noutro formato. Mas o homem requer
ser transformado em aquilo que antes ele não possuía. Precisa de uma
transformação tão grande quanto a ressurreição dos mortos; precisa tornar-se
nova criatura. As coisas antigas terão que passar, e tudo terá que ser novo.
Precisa nascer de novo - nascer do alto, de Deus. O nascimento natural não é mais
necessário à vida do corpo do que o nascimento espiritual é necessário à vida
da alma (ver 2 Cor. 5.17; João 3.3).
Bem
sei que são palavras duras. Sei que os filhos do mundo não gostam de ouvir que
têm de nascer novamente. Isso espicaça suas consciências; faz com que se sintam
mais longe do céu do que estão dispostos a admitir. Parece uma porta estreita
diante da qual estão indispostos a se curvar para entrar, e eles teriam prazer
em alargar tal porta, ou subir por outro caminho. Mas não ouso ceder quanto a
essa questão. Não posso iludi-las nesta questão, dizendo que as pessoas devem
apenas arrepender-se um pouco, despertar algum dom que possuam em seu interior,
a fim de se tornarem cristãos genuínos. Não ouso empregar outra forma de
linguagem que não a da própria Bíblia; digo, portanto, nas palavras que foram
escritas para o nosso aprendizado: "Todos nós precisamos nascer de novo;
todos estamos naturalmente mortos, e carecemos de revivificação".
Se
pudéssemos ver Manasses, rei de Judá, em certa época enchendo Jerusalém de
ídolos, matando seus filhos em honra a falsos deuses, e depois purificando o
templo, acabando com a idolatria e vivendo vida piedosa; se pudéssemos ver
Zaqueu, o publicano de Jericó, em certa época enganando, lesando e cobiçosamente
levando o que não lhe pertencia, e depois, seguindo a Cristo, dando metade dos
seus bens aos pobres; se pudéssemos ver os servos da casa de Nero, em certa
época conformando-se com os modos pérfidos de seu senhor, e depois, sendo de um
só coração e mente com o apóstolo Paulo; se pudéssemos ver o antigo pai da
igreja, Agostinho, em certa época fornicador, e noutra, andando junto a Deus;
se pudéssemos ver o reformador Latimer, num certo tempo pregando sinceramente
contra a verdade que se encontra em Jesus, e depois, gastando-se e deixando-se
desgastar, até à morte, na causa de Cristo - se tivéssemos visto de perto
qualquer dessas maravilhosas mudanças, pergunto a cada pessoa sensível; O que
diríamos? Ficaríamos satisfeitos em chamar tais transformações apenas de
emendas ou alterações? Ficaríamos contentes em dizer apenas que Agostinho
"reformou sua conduta", e que Latimer "começou uma nova página
de sua vida"? Se disséssemos apenas isso, as próprias pedras clamariam.
Em
todos esses casos, nada menos que um novo nascimento ocorreu, uma ressurreição
da natureza humana, uma vivificação dos mortos. São estas as palavras certas.
Outros termos seriam fracos, pobres, mendicantes, não-biblicos, e estariam
aquém da verdade.
Não
posso esquivar-me de dizer claramente que todos nós precisamos da mesma espécie
de mudança, se tivermos de ser salvos. A diferença entre nós e qualquer um dos
que citei é muito menor do que parece. Tirando a casca exterior, encontraremos
a mesma natureza em nós e neles - uma natureza iníqua, que requer mudança
total. A face da terra é muito diferente nos diversos lugares, de climas
diversos. Mas o coração da terra, creio eu, é o mesmo em toda parte. Não
importa onde formos, sempre encontraremos o granito ou outras rochas
primitivas, sob nossos pés, se nos aprofundarmos o suficiente. Dá-se o mesmo
com os corações humanos. Seus costumes, suas cores, suas maneiras e suas leis
poderão ser totalmente diferentes uns dos outros, mas o homem interior é sempre
o mesmo. Seus corações são todos iguais no fundo - pedregosos, duros, ímpios,
todos carentes de uma transformação total. O brasileiro e o aborígene de Nova
Guiné se encontram no mesmo nível nesta questão: ambos estão mortos por
natureza, ambos precisam reviver. Ambos são filhos do mesmo pai Adão que caiu
pelo pecado, e ambos precisam nascer de novo e serem feitos filhos de Deus.
Não
importa a parte do globo em que vivamos, nossos olhos precisam ser abertos; por
natureza, não vemos a nossa pecaminosidade, a nossa culpa e o perigo que
corremos. Não importa a nação a que pertençamos, nossa compreensão tem que ser
iluminada; por nós mesmos conhecemos pouco ou nada a respeito do plano de
salvação; como os construtores de Babel, planejamos chegar ao céu pelo nosso
próprio caminho. Não importa a que igreja pertençamos, nossa vontade terá que
ser inclinada na direção certa; por natureza, nunca escolhemos as coisas que
nos dão a paz; por natureza, jamais veríamos a Cristo. Não importa a posição
que ocupemos na vida, nossos afetos têm que ser voltados para as coisas de
cima; naturalmente, só vemos as coisas terrenas, sensuais, efêmeras e vãs. O
orgulho tem de dar lugar à humildade, a auto-justificação tem de dar lugar à
auto-condenação; o descuido à seriedade, o mundanismo à santificação, a
incredulidade à fé. 0 domínio de Satanás deve ser eliminado em nós, e o reino
de Deus edificado. O eu precisa ser crucificado, e Cristo deve reinar. Enquanto
essas coisas não ocorrerem, estaremos mortos como as pedras. Quando essas
coisas começam a ocorrer, mas não antes, começamos a viver.
J. C. Ryle - 1816 - 1900
Deixe-me
dizer isso por extenso. A Escritura mostra que Deus cria os seres humanos tendo
em vista sua alegria. "O fim principal do homem é glorificar a Deus e
agindo assim desfrutá-lo para sempre" (Catecismo Menor de Westminster,
resposta à pergunta 1). Alegria foi o plano de Deus para o homem desde o início.
O propósito de Deus, que nós tivéssemos prazer nele, diretamente na comunhão
direta face a face, e indiretamente pelo prazer naquilo que ele criou, se
mostra no fato de o lar terreno dado a Adão e Eva ter sido um jardim de
prazeres (o Éden) onde Deus mesmo andava na fresca da tarde.
O
salmista recupera uma sanidade espiritual que havia quase perdido quando
declara: "Estou sempre contigo; tu me seguras pela minha mão direita, tu
me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória. Quem mais tenho eu
no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra... Deus é a fortaleza do
meu coração e a minha herança para sempre.... Bom é estar junto a Deus"
(SI 73.23-28). O pensamento é o mesmo encontrado em Salmos 43.4 onde Deus é
chamado de "a minha grande alegria". O Novo Testamento nos conta que
nossa redenção e vida em Cristo inverte a situação de maldição e morte que
tínhamos em Adão (veja Rm5.12-19; ICo 15.21 ss.), que Deus "tudo nos
proporciona ricamente para nosso aprazimento" (lTm 6.17), e que os santos
glorificados têm prazer perpétuo no Deus a quem perpetuamente adoram (ver Ap
7.9-17; 21.1-4; 22.1-5).
Assim
parece que a atividade salvadora vindica, restaura, e cumpre seu propósito
original de alegria para o homem que a malícia satânica e o pecado humano
frustraram. Alegria para o mundo continua sendo o alvo de Deus.
O
Novo Testamento leva-nos um passo adiante na compreensão disso. No Evangelho
de João é descortinado o amor e a honra mútuos que ligam Pai, Filho e Espírito
Santo na união do único Deus eterno (ver João2.16ss.; 4.34; 5.19-30; 6.38-40;
12.27ss.; 14.31; 16.13-15), e Jesus ora ao Pai pedindo que seus discípulos
sejam "um... em nós... como nós o somos: eu neles e tu em mim" (João
17.21-23). Ele afirma seu desejo para "que eles tenham o meu gozo completo
em si mesmos" (v. 13). O propósito original de Deus era que os humanos
compartilhassem a unidade alegre da Trindade; e o evangelho de Cristo, que
proclama libertação do pecado, e que se apoia na bondade providencial de Deus
(ver At 14.17; Rm 2.4), é um convite para entrar para este gozo através do
culto penitente e confiante. É no amor ao Pai e ao Filho — amor que se espelha
no amor do Filho para com o Pai — que a plenitude da alegria será finalmente
encontrada.
Mas
o pecado — auto-adoração, transgres¬são, descrença, impenitência — separa-nos
da alegria de Deus e nos expõe, ao contrário, a uma eternidade ímpia, sem Deus
(ver Jo 3.16-21; Rm 1.18 - 2.16; Ap 22.11-15). Só que o convite do evangelho
ainda está de pé, e a culpa é só nossa se abraçarmos o pecado e deixarmos de
conhecer a alegria no presente e no futuro. Pare agora e pergunte-se: Conheço
eu a alegria como elemento principal, como base central, realidade constante na
minha vida? "Raramente tu vens,/Espírito do deleite", escreveu o poeta
Shelley, e não nos deve causar surpresa a experiência dele, porque ele foi um
teimoso e ardoroso defensor do ateísmo. O cristão, no entanto, descobre que,
embora viver nesse mundo decaído e desordenado nunca seja "um
piquenique", contudo poderá ser um passeio pelo "caminho da
alegria" em resposta ao chamado de Deus.

Contra a opinião dos
que afirmam que não serão perpétuos os suplícios quer do Diabo quer dos homens
maus.
Convém, antes de tudo,
investigar e saber porque é que a Igreja não pôde admitir a opinião dos homens
que anunciam a purificação e o perdão, mesmo ao Diabo, depois das maiores e
mais prolongadas penas.
Não é que tantos santos
e tantos homens instruídos nas Sagradas Escrituras, Antigas e Novas, vejam com
maus olhos a purificação e a felicidade do Reino dos Céus, após suplícios seja
de que natureza e de que intensidade forem, aos anjos qualquer que seja o seu
gênero e dignidade, mas viram antes que não podia ser anulada nem enfraquecida
a decisão divina que o Senhor anunciou que virá a proferir e a estabelecer no
julgamento.
Afastai-vos de mim,
malditos, para o fogo eterno que está preparado para o Diabo e seus anjos,
(realmente, mostra-se por esta forma que um fogo eterno queimará o Diabo e os
seus anjos), nem podia ser anulado o que também está escrito no Apocalipse:
O Diabo que os seduzia
foi lançado num lago de fogo e de enxofre com a besta e o falso profeta e aí
serão torturados dia e noite pelos séculos dos séculos.
O que acolá está
escrito é "eterno" (aeternum) e o que aqui está escrito é "pelos
séculos dos séculos" (in saecula saeculorum) - palavras com que a Sagrada
Escritura nada mais costuma significar senão o que não tem fim no tempo. Por conseqüência,
a mais autêntica fé deve manter como firme e imutável que não haverá regresso
algum do Diabo e dos seus anjos ao estado de justificação e à vida dos santos;
nem outro motivo mais justo e mais manifesto disto se pode encontrar a não ser
este: a Escritura, que a ninguém engana, assegura que Deus não lhes perdoou,
estando, portanto, sob uma primeira condenação, encerrados entretanto nas
negras masmorras do Inferno, reservadas para o castigo do juízo final, quando
forem lançados ao fogo eterno, onde serão atormentados pelos séculos dos
séculos.
Se isto é assim, como é
que os homens, todos ou alguns, serão subtraídos à eternidade desta pena,
depois de um certo tempo, por mais prolongado que se queira, sem imediatamente
se desvirtuar a fé pela qual cremos que o suplício dos demônios será eterno?
Com efeito, se, daqueles de quem se diz:
Afastai-vos de mim,
malditos, para o fogo eterno que está preparado para o Diabo e seus anjos,
todos ou alguns deles não estão lá sempre, que razões há para se crer que hão-de
lá estar para sempre o Diabo e os seus anjos? Será por acaso que a decisão de
Deus, proferida contra os maus, sejam eles anjos ou homens, será verdadeira
para com os anjos e falsa para com os homens? Assim será com certeza se valer
mais, não o que disse Deus mas o que os homens conjecturam. Porque isso não
pode acontecer, não devem discutir contra Deus, mas antes, enquanto é tempo,
obedecer ao preceito divino aqueles que desejam escapar ao suplício eterno.
Depois, que vem a ser isso de considerar como eterno um suplício num fogo de
longa duração, e a vida eterna crê-la sem fim - quando Cristo disse, na mesma
passagem e numa única frase, unindo uma e outra:
Assim estes irão para o
suplício eterno, mas os justos para a vida eterna?
Se um e outro são eternos,
certamente que um e outro são de longa duração, com um fim, ou um e outro são
perpétuos, sem fim. De fato, são referidos par a par: dum lado o suplício
eterno, do outro a vida eterna. Mas dizer numa só e mesma expressão: "A
vida eterna será sem fim, o suplício terá fim" é por demais absurdo.
Portanto: já que a vida eterna dos santos será sem fim, também o suplício
eterno, dos que o merecem, com certeza não terá fim.
a. A providência divina é predeterminada,
mesmo que para nós pareça casualidade.
Uma segunda proposição é que
essas providências, que para nós são eventuais e acidentais, são
predeterminadas pelo Senhor. A queda de uma telha sobre a cabeça de alguém e o
surgimento de um incêndio, o que nos parecem casuais, são, na verdade,
ordenados pela providência de Deus. Tem-se um claro exemplo disso em 1 Reis
22.34: "Então, um homem entesou o arco e, atirando ao acaso, feriu o rei
de Israel por entre as juntas da sua armadura". Esse acidente foi casual
para o homem que entesou o arco, mas era divinamente ordenado pela providência
de Deus. A providência de Deus dirigiu a flecha para que atingisse o alvo. As
coisas que parecem acidentais, ou por acaso, são os canais dos decretos de Deus
e a interpretação da sua vontade.
b. A providência divina deve ser
considerada, mas não deve se tornar uma regra para nossas ações
Devemos considerar a providência
de Deus em todos os aspectos de nossa vida, mas não devemos agir como que
esperando apenas por ela. "Quem é sábio atente para essas cousas" (SI
107.43). É bom observar a providência, mas não devemos fazer dela nossa regra
de vida. A providência é um diário do cristão, mas não sua Bíblia. As vezes, um
motivo ruim predomina e se estabelece, porém, não deve ser apreciado por
predominar. Não devemos pensar o melhor de algo que é pecado, simplesmente
porque é bem-sucedido. Tais fatos não devem se tornar regra para o
direcionamento de nossas ações.
c. A providência divina é irresistível,
nada há que impeça sua realização.
Não há no caminho da providência
de Deus nada que a embarace. Quando chegou o tempo da soltura de José, a prisão
não mais pôde detê-lo. "O rei mandou soltá-lo" (SI 105.20). Quando
Deus satisfez os judeus com liberdade de religião, Ciro, pela providência,
baixou uma proclamação encorajando-os a irem a Jerusalém para construir o
templo e adorar a Deus (Ed 1.2,3). Se Deus pretendia defender e proteger a
pessoa de Jeremias no cativeiro, o próprio rei da Babilónia iria alimentar o
profeta e dar ordens para que nada lhe faltasse (Jr 39.11,12).
d. A providência divina é plena de
confiança, mesmo quando todas as circunstâncias parecem contrárias.
Deve-se confiar em Deus quando
suas providências parecem contrárias às suas promessas. Deus prometeu dar a
coroa a Davi, fazê-lo rei. Porém, a providência caminhava em direção contrária
a essa promessa. Davi foi perseguido por Saul e ficou em perigo de morte, porém
era dever de Davi confiar em Deus. Por favor, note que o Senhor, por intermédio
das providências da cruz, sempre cumpre sua promessa. Deus prometeu a Paulo a
vida de todos aqueles que estavam com ele no navio; mas, a providência de Deus
parecia contrária a essa promessa, pois os ventos sopravam e o navio rachou e
partiu-se em pedaços. E foi assim que o Senhor cumpriu sua promessa: boiando
sobre os pedaços do navio, eles chegaram a salvo na praia. Confie em Deus
quando as providências parecem contrárias às promessas.
e. As providências de Deus são um conjunto
de vicissitudes, são entrelaçadas
Na vida futura não haverá
misturas: no inferno só haverá amargura, no céu, somente doçura. Porém, nesta
vida, as providências de Deus são misturadas, há nelas tanto algo doce como
algo amargo. As providências são como a coluna de nuvem de Israel, que conduzia
o povo em sua marcha, que era escura de um lado e tinha luz do outro. Na arca
estavam a vara e o maná, assim são as providências de Deus para seus filhos: há
algo da vara e algo do maná. Dessa maneira, podemos falar, como Davi:
"Cantarei a bondade e a justiça" (SI 101.1). Quando José estava na
prisão, estava do lado escuro da nuvem; mas Deus estava com José, era o lado
luminoso da nuvem. Os sapatos de Aser eram de bronze, mas seus pés eram
banhados em azeite (Dt 33.24). Portanto, a aflição é o sapato de bronze que
aperta, mas há graça misturada à aflição, por isso os pés estão banhados em
azeite.
A mesma ação, se vier da
providência de Deus, pode ser boa; mas se vier dos homens pode ser pecado Por
exemplo, José vendido ao Egito por seus irmãos foi pecado, muito perverso, foi
o fruto da inveja deles. Porém, como ato da providência de Deus foi bom porque,
por causa disso, Jacó e toda a sua família foram preservados no Egito. Outro
exemplo é a maldição de Simei sobre Davi. Simei amaldiçoou Davi, e isso foi
perverso e pecaminoso, pois foi consequência de sua malícia. Porém, como sua
maldição foi ordenada pela providência de Deus, foi um ato da justiça do Senhor
para punir Davi e humilhá-lo por seu adultério e assassinato. A crucificação,
como vinda dos judeus, foi um ato de ódio e de maldade contra Cristo. A traição
de Judas foi um ato de cobiça. Porém, como cada um desses acontecimentos foi,
também, um ato da providência de Cristo, então havia bondade neles. A morte de
Cristo foi um ato do amor de Deus pelo mundo.
A retidão moral de Deus consiste em ele estimar o que é mais precioso, ou seja, ele próprio
Se o próprio Deus é, em qualquer sentido, devidamente passível de ser o seu fim na criação do mundo, é razoável supor que ele considera a reverência a si mesmo como o fim último e transcendente de suas obras, pois ele é digno em si mesmo de ser esse fim, uma vez que é infinitamente o maior e melhor de todos os seres.
Todo o restante, no tocante a dignidade, importância e excelência, não é absolutamente nada em comparação a ele. E, portanto, se Deus demonstra a sua reverência pelas coisas segundo a sua natureza e suas proporções, deve ter a maior reverência possível por si mesmo. Seria contrário à perfeição de sua natureza, à sua sabedoria, à sua santidade e retidão perfeitas, segundo as quais ele é inclinado a fazer tudo o que é mais correto, supor algo diferente.
Uma parte considerável da retidão moral de Deus, pela qual ele é inclinado a tudo o que é correto, adequado e amável [isto é, agradável, admirável] em si mesmo, consiste em ele ter a mais elevada deferência por aquilo que é, em si mesmo, superior e melhor. A retidão de Deus deve consistir numa devida reverência por aquilo que é objeto de respeito moral, ou seja, pelos seres inteligentes capazes de atos e relacionamentos morais. E, portanto, deve consistir, acima de tudo, em reverenciar apropriadamente o Ser ao qual essa reverência é devida, pois Deus é infinitamente mais digno de ser reverenciado.
A dignidade de outros não é nada em comparação com a dignidade dele; a ele pertence toda reverência possível. A ele pertence toda a reverência de que qualquer ser inteligente é capaz. A ele pertence TODO O coração. Logo, se a retidão moral do coração consiste em reverenciar sinceramente aquilo que é devido, ou que assim o requer por força de seu merecimento e propriedade, esse merecimento requer que se preste deferência infinitamente maior a Deus, e a negação dessa deferência pode ser considerada uma conduta infinitamente imprópria. Segue-se, portanto, que a retidão moral da disposição, inclinação ou afeição de Deus consiste SOBRETUDO numa deferência POR SI MESMO infinitamente superior à sua deferência por todos os outros seres; em outras palavras, é nisso que consiste a sua santidade.
É apropriado que Deus revele por meio de suas obras aquilo que ele mais estima: a si mesmo.
E, portanto, se é apropriado que Deus tenha uma deferência suprema por si mesmo, também é apropriado que essa deferência se mostre nas coisas por meio das quais ele se faz conhecido, ou por meio de suas palavras e suas obras, ou seja, no que ele diz e no que ele faz. Se é infinitamente amável [isto é, agradável, admirável] que ele tenha uma deferência suprema por si mesmo, é amável [isto é, agradável, admirável] que suas ações correspondam a essa deferência máxima por si mesmo, ou que ele aja de maneira a demonstrar que possui tal deferência: que o mais importante no coração de Deus seja o mais importante nas suas ações e conduta.
E, se era a intenção de Deus - como há motivos fortes para crer que tenha sido o caso - que as suas obras revelassem uma imagem dele próprio como o seu autor, que mostrassem claramente o tipo de ser que ele é, oferecendo uma representação apropriada de suas excelências divinas, e especialmente de sua excelência moral, que consiste na disposição do seu coração, é razoável supor que as suas obras são realizadas a fim de mostrar essa reverência suprema dele por si mesmo, na qual consiste, sobretudo, a sua excelência moral.
O grau de deferência por um ser é proporcional à sua existência e excelência
Ao considerarmos o objeto mais apropriado da reverência de Deus, principalmente a respeito da universalidade das coisas, talvez nos seja proveitoso, para avaliar mais fácil e satisfatoriamente, considerar o que podemos supor seria determinado por um terceiro ser de sabedoria e retidão irrepreensíveis, perfeitamente indiferente e desinteressado. Ou, ainda, conjecturar que a justiça infinitamente sábia e a retidão são uma pessoa distinta e desinteressada cuja incumbência é determinar de que modo as coisas devem ser ordenadas mais apropriadamente em todo o reino da existência, incluindo o rei e seus súditos - Deus e suas criaturas e, ao observar o todo, decidir qual deferência deve prevalecer em toda conduta de que maneira esse juiz, ao aferir as devidas medidas e tipos de deferência, pesaria as coisas numa balança justa, cuidando para que a parte maior do todo fosse mais reverenciada que a parte menor, proporcionalmente (sendo as outras coisas iguais) à medida da existência.
Assim, o grau de deferência deve sempre se encontrar em uma proporção composta da proporção da existência e da proporção da excelência, ou estar de acordo com o grau da grandeza e da bondade, consideradas conjuntamente.